Entrevista | Luís Taborda Barata

Coordenador da Linha Temática 3 – Hormonas, Infeção, Inflamação e Metabolismo da Unidade de Investigação RISE-Health e Professor Catedrático na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior (UBI).

Luís Taborda Barata é professor catedrático de Medicina na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior (UBI), onde desenvolve atividade docente e científica no Departamento de Ciências Médicas. É também coordenador científico do Centro de Investigação em Ciências da Saúde (CICS-UBI) e coordenador da Linha Temática 3 – Hormonas, Infeção, Inflamação e Metabolismo da Unidade de Investigação RISE-Health.

Especialista em Imunoalergologia, é diretor do Departamento de Alergia e Imunologia Clínica da Unidade Local de Saúde da Cova da Beira e desenvolve atividade clínica na área das doenças alérgicas e respiratórias. Ao longo da sua carreira tem assumido diversos cargos científicos e institucionais, incluindo a coordenação do Centro de Investigação em Ciências da Saúde, a presidência do Conselho Científico da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e a vice-presidência do Conselho Consultivo da Agência de Investigação Clínica e Inovação Biomédica.

Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra em 1987 e realizou formação clínica em Imunoalergologia nos Hospitais da Universidade de Coimbra e no Royal Brompton Hospital, em Londres. Em 1993 concluiu o mestrado em Imunologia pela Universidade do Porto e, em 1998, o doutoramento em Medicina pelo Imperial College London, com investigação centrada nos mecanismos das doenças alérgicas.

Ao longo do seu percurso académico e científico, participou na criação e desenvolvimento da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, onde desempenhou funções como presidente do Departamento de Ciências Médicas, diretor do curso de Medicina e presidente da Faculdade. A sua atividade científica centra-se sobretudo na área da imunoalergologia e das doenças respiratórias, com participação em projetos de investigação e colaborações nacionais e internacionais.


O que o levou a escolher a Medicina e, mais especificamente, a especialidade de Imunoalergologia?

É difícil dizer o que me levou a escolher Medicina, pois acho que sempre fez parte da minha alma e dos meus ossos, assim como se fosse uma necessidade óbvia, mas, ao mesmo tempo, inexplicável. Vindo de uma família com tradição no Direito (desde o século XVII) e com apenas dois antepassados médicos, não podia invocar aspectos genéticos.

A tal necessidade indescritível fez com que, quando tive de colocar as opções de cursos universitários de meu interesse, tenha apenas colocado “Medicina – Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra”. Acho que esta escolha foi um misto de querer ajudar o próximo, de querer desafiar os limites do que é possível fazer em relação às doenças, e de querer ter uma componente aventureira, uma vez que tinha planos de ser um “Royal Flying Doctor”, na Austrália. Acabei por satisfazer um pouco isto tudo, nomeadamente através de trabalho em Angola e na África do Sul.

Quanto à Imunoalergologia, também não foi fácil. Sempre pensei em seguir Pneumologia, embora também gostasse muito da área de Imunologia. Enquanto estava no curso de Medicina, essas foram as duas áreas favoritas, mas sempre privilegiei a área da Pneumologia.

Contudo, um dia, um colega do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (ICBAS-UP) alertou-me para a abertura de 12 vagas para um Mestrado em Imunologia naquela instituição, que era coordenado pela ímpar Professora Maria de Sousa. Achei muito interessante e concorri. Para minha surpresa – pois havia muitos candidatos – fui aceite e, ao longo do 1º ano do mestrado, fiquei fascinado com a exposição científica ao mais alto nível e com referências mundiais da Imunologia. Esta situação levou-me a, pela primeira vez, duvidar de escolher Pneumologia como especialidade a seguir e a ficar interessado na possibilidade de enveredar pela Imunoalergologia, que juntava o fascínio da Imunologia com a perspectiva de poder lidar com patologias alergológicas que já se estavam a tornar cada vez mais frequentes.

No dia de escolher a especialidade, estava eu na Administração Regional de Saúde do Centro (penso eu), a fazer trajectos mentais ad nauseum entre as duas possibilidades. Tinha a funcionária que comunicava as decisões dos candidatos aos outros dois centros (Lisboa e Porto), a pressionar-me, uma vez que o tempo urgia e não podia esperar mais, até que, de forma súbita, deixei escapar “Imunoalergologia”.

Ingressei na especialidade, nos Hospitais da Universidade de Coimbra e mantive sempre um enorme gosto por essa área, mas também sempre pela Pneumologia – curiosamente, em Inglaterra, onde trabalhei vários anos para o meu doutoramento e fiz várias das valências clínicas da especialidade de Imunoalergologia, acabei por ficar registado como interno de Pneumologia e aprender bastante também desta área porque a especialidade de Imunoalergologia ainda não existia naquele país. Enfim, trajectos directos e lineares não são uma característica minha. 


Como Coordenador da Linha Temática 3 da RISE-Health, quais são os principais objetivos e prioridades científicas que define para este grupo de investigação?

Como Coordenador da Linha Temática 3 (LT3) da RISE-Health, achei que todos os membros de todos os grupos que constituem esta linha tinham de estar envolvidos na definição dos objectivos e prioridades científicas da mesma. Assim, lancei as bases de um Plano Estratégico a cinco anos para a LT3, com objectivos estratégicos, operacionais e indicadores de sucesso, sobre os quais abri à discussão geral e inserção de sugestões de alterações, por parte de todos os membros. Assim, nesse plano construído por todos, temos sete objectivos estratégicos, dos quais três são globais: 1) Aprofundar o estudo de interfaces entre hormonas, aspectos metabólicos e inflamação em diversos contextos; 2) Desenvolver novos métodos, estratégias e ferramentas diagnósticas e prognósticas; 3) Contribuir para tratamentos inovadores de doenças.

Os restantes objectivos estratégicos globais dizem respeito à consolidação da LT3: 4) Aumentar a qualidade da produção científica; 5) Robustecer colaborações estratégicas; 6) Consolidar recursos humanos; 7) Aumentar a captura de financiamento competitivo.

Finalmente, além destes objectivos e prioridades científicas, cada um dos quatro grupos da LT3 – Hormones & Metabolism (H&M); Metabonomics, Obesity & Related Disorders (MORD); Medical Microbiology & One Health MMed&OH); Exposome-Related Inflammatory & Allergic Diseases (ERIAD) – tem os seus próprios objectivos, que também constam do Plano Estratégico.     


Na sua opinião, qual o papel da investigação translacional na melhoria das práticas clínicas e das políticas de saúde hoje em dia?

A investigação translaccional é fundamental para a melhoria das práticas clínicas pois, nomeadamente através de diversas abordagens de “Omics” permite a identificação de biomarcadores e processos biopatológicos ligados a diversos fatores da fisiopatologia de uma doença, contribuindo para fortalecer aspectos não só de prevenção, mas também de diagnóstico, monitorização, prognóstico e tratamento. Por exemplo, ao estabelecer eixos entre a investigação fundamental e a clínica, a translacção também permite agilizar e melhorar diversos aspectos ligados ao desenvolvimento de novos fármacos, biofármacos e dispositivos médicos.  Neste contexto, a investigação translaccional é crucial como suporte para uma Medicina Personalizada e de Precisão e também para se fortalecer o leque de parâmetros que permite a aplicação de Medicina baseada em Evidência, com indicadores sólidos, por exemplo, de eficácia e segurança, tão relevantes para os doentes e o tratamento de doenças, como para a monitorização e procura de aumento da qualidade da prestação de cuidados de saúde.

Vários destes aspectos que resultam de investigação translaccional e sua verificação em contexto clínico, têm sido traduzidos em directrizes e normas de orientação clínica com expressão em políticas de saúde. A área em que trabalho, ligada à asma, é um dos melhores exemplos do papel da investigação de translacção na melhoria das práticas clínicas, com certos biomarcadores a ter um papel fundamental na caracterização e estratificação de doentes, com novos tratamentos biológicos orientados para o tratamento – e possivelmente para a promoção da remissão – da doença, com base nesses biomarcadores, com novas abordagens de monitorização da doença através de mobile Health (mHealth), com vários dos resultados destas abordagens sendo usados para a definição de novas directrizes de abordagem e/ou tratamento da doença.  


A criação da RISE-Health marcou a fusão de várias unidades de investigação numa única estrutura. Na sua opinião, que impacto pode a RISE-Health ter na investigação nacional? Qual a importância de uma Unidade de Investigação como a RISE-Health para o futuro da ciência e da saúde no nosso país?

A RISE-Health pode vir a ter um grande impacto não só na investigação nacional, mas também internacional. Sendo a maior UI&D na área da investigação clínica e de translacção, a nível nacional, é constituída por diversos pólos, distribuídos por uma grande parte do território nacional e que reúnem múltiplos investigadores e clínicos, em laboratórios e em ambientes clínicos diversos e com uma elevada capacidade científica, alinhada “da molécula à comunidade e da comunidade de volta à molécula“.

Este eixo translacional forte tem um enorme potencial dado o alargado leque de conhecimentos, técnicas e equipamentos a ele associados e que vão desde estudos in vitro a ensaios clínicos, passando por análise e gestão de dados de saúde, tudo dentro da mesma UI&D.

Além disso, este eixo está associado a uma internacionalização clara, com participação activa em diversas redes científicas europeias e mundiais, que se pretende expandir ainda mais. De facto, a diversidade que caracteriza esta nova UI&D permite ter uma oferta muito mais rica para essas redes. Contudo, para expandir muito mais a sua relevância nacional e internacional, a RISE-Health necessita de continuar os esforços da sua consolidação como uma UI&D forte, sustentada por uma rede profundamente articulada de pólos, que permita dar importância a todos estes, maximizando sinergias e complementaridades que resultem em cada vez mais projectos integrados e colaborativos, geradores de inovação disruptiva. Por outro lado, a RISE-Health também está numa posição ímpar para desenvolver ainda um novo eixo muito relevante: o do ensino-investigação. De facto, na sua globalidade, oferece uma rica interacção para um vasto leque de cursos, que permite que a investigação vá de mãos dadas com o ensino, em diferentes linhas verticais, desde cursos de pré-graduação até cursos de pós-graduação (cursos não conferentes de grau, mestrados, doutoramentos).

Sabendo expandir e robustecer os dois eixos acima referidos, a contribuição da RISE-Health para o futuro da ciência e da saúde no nosso país terá sustentabilidade, forte inovação e elevado impacto científico, clínico e societário, nomeadamente com tradução em políticas de saúde e de educação.

Por opção expressa do entrevistado, este texto foi redigido segundo a ortografia vigente antes do Acordo Ortográfico.