Fármacos para asma e coração podem ajudar a tratar cancro da bexiga

Proposta de investigadores da RISE-Health e FMUP vai permitir “reduzir o tempo, o custo e o risco associados ao desenvolvimento de novas terapêuticas”.

 

Os medicamentos cardiovasculares, especificamente aqueles que alteram a força de contração do músculo cardíaco, a par de fármacos utilizados na gestão da asma, podem ser uma “nova solução” para o tratamento do cancro da bexiga. A conclusão é de um estudo da Unidade de Investigação RISE Health e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), que procurou estudar a potencial reutilização de fármacos associados a patologias como a insuficiência cardíaca e a asma no tratamento deste tipo de cancro.

Os resultados, obtidos em ensaios laboratoriais com células de cancro da bexiga, ainda estão numa fase inicial e distante da aplicação clínica. Contudo, “constatámos que estes fármacos – milrinone e terbutalina – potenciaram significativamente os efeitos anticancerígenos do 5-FU, medicamento de quimioterapia, nas células cancerígenas da bexiga […], o que indica um benefício específico para este tipo de tumor”, pode ler-se no trabalho científico publicado na revista Cancers.

De acordo com o trabalho liderado por Nuno Vale e Eduarda Ribeiro, investigadores da RISE-Health e da FMUP, “a terbutalina modulou o stress oxidativo provocado pelo 5-FU nas células de cancro da bexiga. Este resultado é particularmente interessante porque o stress oxidativo influencia a resposta celular à quimioterapia e pode estar envolvido nos mecanismos de adaptação e resistência tumoral”.

Segundo os especialistas, o reaproveitamento de fármacos permite “reduzir o tempo, o custo e o risco associados ao desenvolvimento de novas terapêuticas”, explicando que a milrinone e a terbutalina, quando combinadas com o 5-FU, diminuíram a capacidade das células de migrarem e de formarem novas colónias, dois comportamentos associados à progressão e à persistência do tumor.

 

Os próximos passos

Nuno Vale e Eduarda Ribeiro acrescentam que “o objetivo futuro não será, por isso, administrar estas combinações indiscriminadamente a todos os doentes com cancro da bexiga”, realçando que “uma estratégia verdadeiramente personalizada deverá ainda integrar informação clínica, molecular e funcional de cada paciente.

Além da análise genética e proteómica do tumor, poderão ser utilizados organoides ou culturas de células derivadas do próprio doente para testar, em laboratório, a resposta às diferentes combinações antes da decisão terapêutica”.

“O potencial desta investigação não reside apenas na identificação de dois medicamentos que poderão aumentar o efeito do 5-FU. Reside também na possibilidade de construir uma abordagem em que o tratamento seja selecionado com base nas características específicas do tumor de cada doente, procurando maximizar a eficácia e reduzir tratamentos desnecessários, toxicidade e risco de resistência”, concluem os investigadores.