RISE-Health é parceira do novo Doutoramento em Saúde Translacional

Novo Programa Doutoral tem início já no ano letivo 2026/2027 e vai aproximar estudantes aos investigadores da maior Unidade de Investigação do país.

 

Ana Teresa Maia desde cedo soube que queria ajudar pessoas e que o pretendia fazer através do estudo da genética. Apaixonada pela investigação, licenciou-se em Química Aplicada – Ramo de Biotecnologia na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e rumou depois ao Reino Unido, onde concluiu o Mestrado em Genética Molecular no Imperial College London e o Doutoramento em Genética Humana no Institute of Cancer Research (Universidade de Londres).

Especialista em cancro, com foco em cancro da mama e medicina de precisão, é também fundadora da spin-off expressTEC, através da qual procura levar biomarcadores de investigação até à prática clínica. O seu percurso já foi distinguido com o 1st Global Health Accelerator Award, o Women TechEU Award e Women In Leadership Award da Deloitte, entre outros.

 

O que a levou a seguir uma carreira na área das Química Aplicada – Biotecnologia e da investigação em cancro? Houve algum momento ou experiência decisiva nesse percurso?

A Química Aplicada apareceu sem querer. Eu sempre gostei muito de genética e era a genética que em adolescente me fascinava. Na altura, a Química Aplicada era um curso recente em Portugal, e apesar de ter concorrido a Medicina, a Medicina não era, definitivamente, a minha vocação, uma vez que a perspectiva do contacto com o paciente me deixava nervosa.             

Gosto de estar no laboratório e de perceber as doenças, e o cancro em particular. Comecei a interessar-me quando, no início dos meus estudos em ciência e genética, li uma entrevista ao Professor Sir Bruce Ponder na Scientific American. Quinze anos mais tarde, viria a ser o meu orientador de pós-doutoramento.

Acredito que parte desta paixão também tenha surgido porque, aos 16 anos de idade, fui incorretamente diagnosticada com cancro enquanto via dois avós a padecer com esta doença. Na altura, queria muito compreender por que é que as pessoas tinham esta doença e de que forma a ciência poderia ajudar.

 

Ao longo da sua carreira, tem trabalhado em áreas ligadas à oncologia molecular, biomarcadores e medicina de precisão. O que continua a fasciná-la mais na investigação em cancro e quais considera serem hoje os maiores desafios nesta área?

A medicina de precisão tem vindo a crescer. Se olharmos para a quimioterapia, que inicialmente era vista como uma solução para todos, agora percebemos que cada cancro é uma doença individual de cada paciente. No caso do cancro da mama, em que trabalho desde 2003, um dos estudos em que participei permitiu subdividi-lo em dez doenças diferentes, que devem ser tratadas de forma completamente distinta.

Esta riqueza fenotípica e de variabilidade clínica dos pacientes tem de ser olhada com muita atenção para conseguirmos efetivamente aumentar as taxas de resposta porque, ainda hoje, sabemos que 50% dos pacientes que são diagnosticados pela primeira vez com cancro não vão responder à primeira terapia.

 

O seu percurso inclui também uma forte componente de inovação e transferência de conhecimento para o setor empresarial, através da expressTEC. Na sua opinião, qual a importância de aproximar a investigação académica da indústria e da prática clínica?

Sou de uma geração formatada para pensar que a investigação científica servia para criar conhecimento, não para gerar dinheiro. Descobríamos, publicávamos o artigo e ficávamos à espera que, um dia, alguém o fosse transferir para o mundo.

Na investigação, a minha motivação sempre foi ajudar o paciente, desde o doutoramento, em que fazíamos diagnóstico de leucemias infantis para crianças de todo o mundo.

O maior projeto em que participei publicou os primeiros resultados em 2012 e, 14 anos depois, ainda não tem aplicação directa na clínica. Porquê? Porque quando os dados são recolhidos com fundos públicos e publicados em acesso aberto, e houve pouco investimento no patenteamento, muitas vezes por uma decisão ética deliberada, a convicção de que investigação paga pelo contribuinte deve permanecer aberta a todos. Mas sem patente, a indústria não vai à nossa “gaveta” buscar os artigos para transformar em produtos que cheguem à clínica. E a investigação, por si só, também não gera confiança suficiente para que os pacientes procurem nela as soluções para o seu dia a dia.

Temos de transformar conhecimento em produtos e ferramentas que cheguem à clínica. Sinto que entrei numa terceira fase da carreira: depois de aprender a fazer e de descobrir, chegou a altura de ser eu a levar os biomarcadores e o conhecimento gerado ao longo de 25 anos até à clínica e ao paciente.

Só com a minha teimosia e o meu sentido de missão é que estes testes vão chegar aos pacientes. Mais do que uma paixão, sinto que é um dever: se descobri algo com fundos públicos, a única forma de o levar ao público é transformá-lo eu própria num produto comercializável.

 

Enquanto membro integrado da RISE-Health, quais considera serem os principais contributos que uma unidade de investigação multidisciplinar pode trazer para o avanço da investigação em saúde em Portugal?          

Quem faz investigação translacional não pode estar num centro que cobre apenas uma parte do seu processo de investigação. Preciso de boas condições de investigação laboratorial, de acesso a conhecimento e a amostras clínicas, e é isso que a RISE-Health proporciona: a terra fértil para se fazer boa investigação translacional em Portugal.

A nossa empresa é uma spin-off da RISE-Health, e é através da unidade que tenho acesso às amostras clínicas necessárias para validar o nosso teste. Estamos também a criar, na RISE-Health, um centro de computação com servidores de alta capacidade, algo que a minha empresa, sozinha, não teria condições para montar. Como membro da unidade, posso recorrer a essa infraestrutura em vez de depender apenas de serviços de cloud, por exemplo.

Há força no número. É muito mais eficaz ter um centro de cálculo robusto, central e acessível a todos os membros, do que cada um montar uma estrutura local mais pequena que, isoladamente, pouco serve. As diferentes vertentes que a RISE-Health reúne são essenciais para a investigação translacional.

 

Quando pensa no futuro da investigação em saúde, o que a deixa mais otimista?

Sou otimista por natureza. Nasci já a pensar nas oportunidades que ainda nem sei que existem. Se olhar para trás, tudo o que faço hoje não existia quando nasci. Quando comecei o doutoramento a Biologia Computacional nem sequer existia como área, e foi onde criei e liderei uma equipa na Universidade do Algarve.

Já passei por várias fases da ciência, e o que me deixa mais otimista é precisamente aquilo que ainda não sei que vai acontecer.