Estudo da RISE-Health e da FMUP abre caminho a tratamento mais personalizado de tumores da tiroide em crianças e jovens até aos 25 anos.
Um grupo internacional de investigadores, liderado por Sule Canberk, investigadora da Unidade de Investigação RISE-Health e docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), demonstrou que determinadas alterações moleculares somáticas do tumor da tiroide estão associadas a diferentes prognósticos desta patologia em crianças, adolescentes e jovens adultos.
O estudo publicado na European Thyroid Journal, uma revista de referência a nível europeu, demonstrou que o perfil molecular do tumor da tiroide tem valor prognóstico independente da idade, do sexo e da duração do seguimento, contribuindo para prever a evolução clínica destes doentes.
Esta descoberta, de acordo com a especialista, indica que a idade não deve ser tratada apenas como um descritor demográfico na avaliação de nódulos tireoidianos em crianças e jovens, realçando que as recomendações atuais de tratamento desta patologia não estabelecem, de forma explícita, uma estratificação da abordagem dentro da população pediátrica.
“As fusões [dos genes] NTRK1/3 e RET, mais prevalentes nos doentes mais jovens, associaram-se a desfechos menos favoráveis, enquanto o BRAF V600E, mais frequente na adolescência, apresentou um perfil de risco intermédio; as mutações RAS mostraram uma tendência favorável e, na nossa série, todos os casos com alteração DICER1 tiveram uma resposta excelente”, revela Sule Canberk (RISE-Health/FMUP).
Segundo o trabalho científico, a caracterização molecular de tumores da tiroide em fases precoces da vida pode contribuir para uma estratificação de risco mais precisa, abrindo caminho a decisões clínicas mais informadas, nomeadamente ao nível do seguimento e da personalização terapêutica.
“Neste estudo, demonstrámos que o tipo de alteração molecular mantém valor prognóstico independente mesmo após ajuste para idade, sexo e duração do seguimento”, esclarece a patologista endócrina.
De acordo com a também docente da FMUP, “a integração sistemática da análise molecular poderá melhorar a estratificação do risco e apoiar decisões clínicas mais informadas. Tal permitirá ir além da idade e do estadiamento clínico e estimar melhor o risco com base no comportamento biológico do tumor”.
“Com base nestes resultados, estamos atualmente a desenvolver uma ferramenta algorítmica com o objetivo de refinar a abordagem pré e pós-operatória dos doentes através do uso combinado de faixas etárias de desenvolvimento, citologia, histopatologia, perfil molecular e dados de seguimento clínico”, conclui a investigadora.
Intitulado “The influence of age-independent somatic driver alterations on clinical outcomes in paediatric and young adult thyroid cancer”, o estudo liderado por Sule Canberk (RISE-Health/FMUP) teve Fernando Schmitt (RISE-Health@RISE/FMUP) como coautor. A investigação contou ainda com especialistas da Turquia, Itália e EUA.