Estudo da RISE-Health analisa saúde mental de presidiários em Portugal

Trabalho científico destacou os principais desafios para a saúde mental de 576 pessoas em situação de reclusão do sexo masculino.

 

Uma investigação, orientada por Francisco Sampaio, especialista da Unidade de Investigação RISE-Health, em coautoria com a estudante de doutoramento Mariana Alfaiate (RISE-Health/ESEP), analisou a saúde mental de reclusos nacionais, identificando as visitas familiares e os regimes prisionais como fatores determinantes de bem-estar e resiliência.

“Verificámos que níveis mais altos de resiliência estão associados a fatores potencialmente modificáveis, como o exercício físico, o contacto presencial regular com família/amigos, melhores estratégias para lidar com emoções negativas e, no contexto, regimes mais abertos. Pelo contrário, a exposição a agressão verbal ou física associou-se a menor resiliência. Isto ajuda a orientar prioridades concretas para promover a saúde mental em meio prisional”, realça Mariana Alfaiate (RISE-Health/ESEP).

De acordo com a especialista  da Unidade de Investigação RISE-Health, “no contexto prisional, a resiliência constitui um fator de proteção fundamental, permitindo que os indivíduos lidem de forma mais eficaz com as exigências emocionais e estruturais do encarceramento, especialmente em contextos caracterizados por um apoio social limitado”, esclarecendo que “a resiliência é, em parte, promovível: pode ser fortalecida com intervenções centradas na regulação emocional, coping, suporte social e condições institucionais que reduzam fatores de risco”.

De acordo com o estudo publicado na revista BMC Psychiatry,  “os níveis de resiliência mental, autoaceitação e apoio social percebido entre os prisioneiros são geralmente baixos e significativamente influenciados por variáveis sociodemográficas”, pode ler-se no trabalho científico.

 

A necessidade de medidas de reintegração na comunidade

Na investigação que contou com a participação de 576 indivíduos do sexo masculino, os investigadores da Unidade de Investigação RISE-Health identificaram as visitas familiares como um fator essencial para o bem-estar dos indivíduos em estabelecimentos prisionais a nível nacional. “As visitas familiares desempenham um papel fundamental na manutenção e no fortalecimento dos laços sociais, servindo como fatores de proteção tanto para a saúde mental quanto para o bem-estar geral. Essas visitas proporcionam um alívio significativo da monotonia da vida na prisão, promovem apoio emocional e facilitam a conexão contínua com a realidade externa. Elas também reforçam os papéis familiares, particularmente na reafirmação da identidade parental para aqueles que têm filhos”.

Além do acesso consistente a cuidados de saúde mental e da necessidade de facilitar um contacto familiar significativo, integrar exercício físico de forma estruturada e oferecer programas breves de promoção de competências de regulação emocional e gestão de stress, Mariana Alfaiate destaca a necessidade de “garantir mecanismos de monitorização contínua da qualidade dos cuidados, com recolha sistemática de indicadores de saúde mental, adesão às intervenções e resultados ao longo do tempo”, “reduzir a violência e as agressões, porque isso mina diretamente o bem-estar e a resiliência” e  garantir a continuidade de cuidados na transição para a comunidade, para diminuir recaídas, crises e reinternamentos após a libertação”, vincou.

O artigo “Resilience and associated factors within the mental health profile of incarcerated adults in Portugal: a cross-sectional study” é um trabalho científico desenvolvido por Mariana Alfaiate, no âmbito do seu doutoramento e conta com a autoria de Francisco Sampaio (RISE-Health/ESEP), Ana Morais e Lino Ramos.