Entrevista | Ana João Santos

Ana João Santos é investigadora da RISE-Health e do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro.

 

Licenciada em Psicologia, Ana João Santos doutorou-se em Gerontologia e Geriatria pelas Universidades de Aveiro e do Porto, em 2018. Ao longo de mais de 15 anos, construiu um percurso na interseção entre a epidemiologia, a saúde pública e a psicologia da saúde, com passagem pelo Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, onde investigou temas como a efetividade e os comportamentos de vacinação, as anomalias congénitas e os determinantes da saúde populacional.

Especialista em violência contra pessoas idosas na comunidade, tem participado em projetos financiados a nível nacional e internacional (FCT, EEA Grants, H2020, ECDC), aliando à investigação a implementação de formações para profissionais de saúde. Atualmente, integra o projeto europeu CURTAIN (EU4Health), que junta 15 parceiros de 9 países para combater as desigualdades em cancro através do reforço da literacia em saúde.

 

Formou-se em Psicologia e doutorou-se em Gerontologia e Geriatria. O que a levou a seguir uma carreira na fronteira entre a psicologia, a epidemiologia e a saúde pública? Houve algum momento ou experiência decisiva nesse percurso?               

Nunca tive dúvidas de que a Psicologia seria a minha formação de base. A gerontologia não foi, durante a licenciatura, uma área a que me tenha dedicado de forma específica, mas acabou por se tornar o fio condutor de todo o meu percurso. Logo após o mestrado, integrei um projeto de investigação na Universidade do Minho sobre a violência contra mulheres idosas. Foi aí que percebi que a gerontologia não é apenas mais uma área de estudo. É uma área que agrega saberes e disciplinas muito diversos para compreender um segmento da população que nem sempre teve, na investigação, o lugar que merece. Esta descoberta teve também uma forte ressonância pessoal: pertenço a uma geração que teve a sorte de crescer rodeada de avós e de tios e tias-avós.           

Foi precisamente pela via da violência que entrei no Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, onde integrei um projeto para estimar a violência contra as pessoas idosas em Portugal. Aí alarguei o meu trabalho à saúde pública e aos determinantes e comportamentos de saúde, sempre com o olhar da gerontologia, que entende o envelhecimento como um processo que se constrói ao longo de toda a vida. Por isso fez todo o sentido realizar, em paralelo, o doutoramento conjunto das Universidades de Aveiro e do Porto em Gerontologia e Geriatria. E a minha ligação atual a Aveiro é a continuação natural desse caminho.

 

Trabalhou vários anos no Departamento de Epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge antes de se dedicar à investigação na Universidade de Aveiro. O que mudou na forma como olha para a saúde da população depois dessa experiência?    

Foram cerca de 12 anos no Departamento de Epidemiologia, uma experiência muito positiva sobretudo em duas dimensões. Por um lado, permitiu-me aprofundar a metodologia e a visão da saúde pública, em alguns aspetos distinta da minha experiência de investigação em psicologia. Por outro lado, mostrou-me a enorme importância da psicologia para a saúde pública, tanto enquanto área de conhecimento como enquanto metodologia científica.

Sabemos hoje, e organizações internacionais como a OMS lembram-no constantemente, que olhar para a saúde da população exige também olhar para os comportamentos. Há muito que falamos dos determinantes sociais da saúde, mas o investimento nem sempre acompanha o discurso. O que mudou no meu olhar, incluindo a população mais velha, foi a consciência de que as ciências do comportamento são uma dimensão incontornável na prevenção e na resposta aos problemas de saúde pública.

 

Tornou-se uma referência no estudo da violência contra pessoas idosas na comunidade, um problema muitas vezes silencioso. O que aprendeu ao ouvir estas pessoas e o que falta fazer para que este tema deixe de ser tabu? 

Alguns dos fatores que alimentam o estigma são comuns a outras áreas de trabalho com pessoas mais velhas, nomeadamente o preconceito com base na idade e a pouca atratividade desta população enquanto foco de investigação. Ainda assim, esta tendência está claramente a ser contrariada, a nível nacional e internacional, com o crescente reconhecimento da gerontologia e dos direitos dos pessoas mais velhas.

No caso da violência, não diria que é um tema tabu, pelo menos na investigação, porque existem em Portugal grupos e investigadores que continuam a dedicar-se a ele. Mas é ainda um tema pouco divulgado e investigado. Penso que possivelmente também derivado da sensibilidade do próprio tema e o facto de as vítimas serem, muitas vezes, pessoas em situação de vulnerabilidade.

Para que o tema ganhe visibilidade, parece-me que além da contínua produção de conhecimento, é importante formar os profissionais que estão na linha da frente para reconhecer os sinais de violência e criar condições para que as próprias pessoas idosas sejam ouvidas. Mas, claro, é essencial investir, criar condições para que mais investigadores queiram trabalhar esta temática.

 

Integra o projeto CURTAIN (Cancer inequalities thRough liTerAcy IN Europe), que reúne 15 parceiros de 9 países europeus para reduzir as desigualdades em cancro através da literacia em saúde. Porque é que a literacia é tão determinante nestas desigualdades e o que espera que este projeto consiga mudar, na Europa e em Portugal?

A literacia em saúde influencia a forma como as pessoas procuram, compreendem e usam informação para tomar decisões sobre prevenção, rastreio ou utilização dos cuidados. E, tal como outros recursos, está distribuída de forma desigual.

Um dos impactos que espero que o projeto tenha é tornar o tema relevante. Já existem várias instituições em Portugal a fazer um excelente trabalho nesta área, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Na NEI, tivemos oportunidade de discutir o projeto com alguns participantes. Um dos temas que surgiu foi a necessidade de retirar o estigma, de deixar de ser preciso sussurrar quando se diz “eu tenho” ou “já tive cancro”. Outro foi a importância de haver espaço para falar do depois, do que acontece após o tratamento. Estas partilhas mostram que ainda há muito por fazer e que é preciso pôr os diferentes setores da sociedade a fazer perguntas e, claro, a obter respostas informadas.

Sabemos que parte dos determinantes da saúde se relaciona com comportamentos e com informação, mas também sabemos que transmitir informação não basta. Se o projeto tiver um impacto significativo, será esse: ajudar a tornar o tema mais fácil de abordar e identificar onde e quando podemos promover a literacia. Foi nesse sentido que o CURTAIN criou o Dia Europeu da Literacia em Cancro. Pretende-se que seja o ponto de partida para um movimento alargado de discussão, não só junto da população em geral, mas também de grupos com oportunidades específicas de trabalhar o tema, como decisores políticos, instituições e associações de doentes.

 

Enquanto investigadora da RISE-Health, quais considera serem os principais contributos que uma unidade desta dimensão pode trazer à investigação em saúde em Portugal?

A RISE-Health tem uma organização única. Ao reunir áreas tão distintas, promove uma visão abrangente da saúde, que vai da clínica à comunidade. É também uma unidade verdadeiramente multidisciplinar e multissetorial, que junta investigadores com formações diferentes e põe em diálogo a academia, os serviços de saúde, a sociedade civil e os decisores.

O meu próprio percurso, por instituições e áreas disciplinares diferentes, faz-me valorizar precisamente isso. Os grandes desafios da saúde, como o envelhecimento da população ou a prevenção do cancro, só se resolvem com esta capacidade de cruzar olhares. É aí que vejo o maior contributo da RISE-Health para a investigação em saúde em Portugal: produzir conhecimento que responde a problemas reais e que chega efetivamente às pessoas.