Especialistas constataram que a doença bipolar no envelhecimento é frequentemente subvalorizada e difícil de diagnosticar devido a outras comorbilidades.
Os internamentos de idosos com doença bipolar são, na sua maioria, de carácter urgente, apresentando uma duração de internamento longa e estão associados a elevadas taxas de reinternamento. Esta é uma das conclusões de um estudo liderado pela Unidade de Investigação RISE-Health que procurou compreender as hospitalizações de idosos com doença bipolar a nível nacional.
De acordo com os autores, que analisaram um total de 4801 hospitalizações entre 2008 e 2015, “à medida que as populações envelhecem, a doença bipolar associa-se a outras patologias que surgem ou agravam com a idade, o que conduzirá a uma maior procura de cuidados de saúde e desafios na gestão das comorbilidades psiquiátricas e não psiquiátricas”.
“A doença bipolar é uma perturbação – grave – do humor. A percepção comum da doença bipolar que ouvimos no discurso do dia-a-dia, atribui erradamente uma instabilidade rápida de humor a estes doentes. Quando falamos de alterações de humor na doença bipolar falamos de variações do humor que acabam por durar semanas ou mesmo meses, caracterizadas por episódios depressivos ou (hipo)maníacos”, explica Manuel Gonçalves Pinho, investigador da RISE-Health (RISE-Health/FMUP).
Segundo o especialista da RISE-Health e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), os idosos com doença bipolar apresentam mais comorbilidades médicas, nomeadamente, doenças cardiovasculares, diabetes, demência e doença pulmonar crónica que, por sua vez, “são importantes na gestão da terapêutica destes doentes, até porque alguns dos fármacos podem impactar outras patologias não-psiquiátricas, como a doença renal e tireoideia”.
Através do estudo publicado na International Journal of Geriatric Psychiatry, os especialistas constataram que a doença bipolar no envelhecimento é frequentemente subvalorizada e difícil de diagnosticar, devido à sobreposição com défices cognitivos e outras doenças neurológicas, defendendo a necessidade de medidas para colmatar a prevalência e consequências desta patologia.
“O diagnóstico de doença bipolar não é uma fatalidade. No entanto, quando os doentes são diagnosticados, devemos garantir que têm acesso aos cuidados de saúde adequados e saber reconhecer os sinais de descompensação da doença, sejam episódios depressivos, maníacos ou hipomaníacos. Estes últimos muitas vezes marcados por um elevado nível de energia, humor elacionado, autoestima muito elevada, gastos excessivos e, em alguns casos, ideias delirantes”, esclarece o também médico psiquiatra.
O trabalho científico “Bipolar Disorder Hospitalization in Older Adults: A Nationwide Retrospective Study” conta com Manuel Gonçalves-Pinho, Daniela Soberano, Lia Fernandes, Alberto Freitas e Ana Rita Ferreira como autores (RISE-Health/FMUP).