Notícias / Soro de leite pode ser “nova solução” para saúde cardiovascular e imunomoduladora
Estudo liderado pela Unidade de Investigação RISE-Health demonstra potenciais benefícios do soro de leite, resíduo associado à produção de queijo.
Uma investigação nacional liderada por Carla Gonçalves (RISE-Health/UTAD), investigadora da Unidade de Investigação RISE-Health, analisou o papel que o soro de leite, tradicionalmente visto como um resíduo da produção de queijo, pode ter na saúde cardiovascular e imunomoduladora das populações.
“Em termos de saúde cardiovascular, a evidência indica que estes compostos podem ajudar a reduzir a pressão arterial, através da inibição de enzimas como a ACE – associada à regulação da tensão arterial – melhorar a função dos vasos sanguíneos, promovendo vasodilatação e reduzir o stress oxidativo e a inflamação, fatores-chave nas doenças cardiovasculares. Ao nível do sistema imunitário, os peptídeos derivados do soro podem regular a resposta inflamatória (reduzindo citocinas pró-inflamatórias), reforçar mecanismos de defesa, incluindo imunidade intestinal, e podem contribuir para um equilíbrio mais saudável do sistema imunitário”, explica Carla Gonçalves.
De acordo com a especialista da Unidade de Investigação RISE-Health, “o impacto do soro de leite na saúde cardiovascular e imunomoduladora está diretamente relacionado com a sua riqueza em proteínas de elevado valor biológico, que funcionam como precursores de peptídeos bioativos. Estes peptídeos são libertados durante processos como a digestão gastrointestinal, hidrólise enzimática ou fermentação, e possuem a capacidade de interagir com múltiplas vias fisiológicas relevantes”.
“O crescente conjunto de evidências aqui analisado destaca o potencial dos peptídeos derivados do soro de leite para modular vias fisiológicas fundamentais envolvidas na regulação cardiovascular, incluindo o controlo da pressão arterial, a integridade endotelial, o equilíbrio do stress oxidativo e as respostas inflamatórias. Este duplo papel — que combina a mitigação ambiental com a promoção da saúde funcional — posiciona a reciclagem de resíduos como uma via promissora para a inovação no âmbito da nutrição sustentável e do desenvolvimento de alimentos funcionais, ao mesmo tempo que apoia ativamente os princípios da economia circular”, pode ler-se no trabalho científico liderado por Carla Gonçalves.
No contexto português, regista-se uma “posição particularmente relevante para afirmar um papel estratégico na valorização do soro de leite, sobretudo no contexto da transição para sistemas alimentares mais sustentáveis e orientados para a saúde”, refere a investigadora da RISE-Health, esclarecendo, também, alguns dos desafios registados em Portugal. “Em regiões com elevada concentração de pequenas queijarias, verifica-se que uma parte significativa do soro não é reaproveitada de forma estruturada, sendo eliminada em sistemas de drenagem ou armazenada sem controlo adequado. Este cenário evidencia uma lacuna entre o potencial científico identificado e a sua aplicação industrial e territorial”, aponta.
O investimento em infraestruturas, a promoção de parcerias entre a academia e os produtores de queijo, a criação de incentivos à inovação e bioeconomia circular, assim como o reforço da regulamentação e monitorização ambiental são apenas algumas das medidas que podem reforçar o papel de Portugal na produção de soro de leite.
“Portugal tem condições únicas para transformar o soro de leite de um passivo ambiental num ativo estratégico, alinhando-se com as agendas europeias de sustentabilidade, economia circular e promoção da saúde. O desafio reside em operacionalizar esta transição, criando pontes eficazes entre conhecimento científico, capacidade industrial e instrumentos de política pública”, conclui.
O artigo “From Cheese Whey to Functional Ingredients: Upcycling Whey Proteins for Cardiovascular and Immunomodulatory Health-Evidence Mapping and Perspectives from Portugal”, financiado pelo Programa PROMOVE o Futuro do Interior—Concurso 2024—of BPI/Fundação La Caixa, é um trabalho científico liderado por Carla Gonçalves (RISE-Health/UTAD) e conta com João Mota, Márcio Moura-Alves, Ana Francisca Teixeira, Rafaela Nóbrega e Diogo Lameirão como coautores.