Entrevista | António Soares

Diretor Executivo da Unidade de Investigação RISE-Health, Diretor Executivo do Laboratório Associado RISE e membro do Conselho Científico da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

 

António Soares é investigador principal e diretor executivo do Laboratório Associado RISE – Rede de Investigação em Saúde e da RISE-Health, unidade de investigação sediada na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), instituição na qual é membro do Conselho Científico.

Colabora regularmente, enquanto perito, com várias agências de financiamento nacionais e internacionais, entre elas, a Comissão Europeia, a EUREKA, a Agência  Nacional de Inovação (ANI) e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

É doutorado em Psicologia da Saúde pela Universidade do Minho e tem formação pós-graduada em Gestão de Projetos e em Gestão, pela Porto Business School (PBS). Em 2011, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), integrou um projeto na área da Comunicação Clínica que lhe permitiu visitar todas as faculdades de medicina nacionais e conhecer a fundo o Ensino Médico em Portugal.

Foi também formador no Centro de  Simulação Médica do Porto (CESIMED) e membro associado do Centro de Simulação Biomédica da FMUP.

 

Licenciou-se em Psicologia da Saúde pela Universidade do Minho e doutorou-se na mesma área. O que o levou a escolher este caminho académico? Foi uma decisão natural desde cedo ou resultado de influências e oportunidades ao longo do percurso?

Sim, desde muito cedo decidi trabalhar em Psicologia e nunca imaginei que viria a fazer o que faço agora. Na realidade, trabalhei como clínico durante cerca de 10 anos, por vezes em contextos bastante exigentes e com casos clínicos complexos, o que, para além de ser recompensador do ponto de vista humano, também me deu muita experiência na gestão das mais variadas situações.

O doutoramento surge da minha necessidade de procurar explicar o que observava na prática clínica e que, na altura, estava relacionada com o tratamento de dependência de substâncias, mais especificamente com a vertente de terapia familiar.

Durante o doutoramento, convidaram-me para dar algumas aulas nos cursos de Psicologia, Enfermagem e Medicina na Universidade do Minho e acabei por me envolver na investigação. Nesse âmbito e numa série de visitas às universidades de Oxford, Tubingen e Dresden, o aspeto mais marcante para mim foi a qualidade das estruturas de apoio à investigação, que, nessa altura, estavam muito à frente do que se fazia em Portugal. Após trabalhar durante um ano na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, num projeto de investigação, surgiu a oportunidade de trabalhar no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS), uma vez que o Professor Altamiro da Costa Pereira, diretor da FMUP, tinha a mesma visão sobre a gestão de ciência e, a partir daí, o resto é história. 

Ao longo da sua formação, investiu também em Gestão de Projetos e em Gestão pela Porto Business School. Como é que estas competências complementares moldaram a sua forma de encarar a investigação e a gestão académica?

Uma das dificuldades que encontrei foi a ausência de formação específica para o que fazia. As sessões públicas de esclarecimento sobre financiamento, networking, e open science são boas, mas não dão propriamente uma estrutura teórica, enquadramento ou método.

Na gestão e na gestão de projetos, encontrei, em parte, essa retaguarda e validação para o que fazia e penso que me ajudaram bastante. Atualmente, tenho recebido algumas solicitações de responsáveis institucionais por profissionais, pelo que estou a preparar uma formação mais estruturada nesta área, além de desenvolver estudos sobre a evidência nas práticas em gestão de ciência e sobre o seu impacto nos outcomes de saúde.

 

 A criação da RISE-Health marcou a fusão de várias unidades de investigação numa única estrutura. O que motivou esta união e que objetivos estratégicos estiveram na base desta decisão?

A Unidade de Investigação RISE-Health está focada na promoção de Investigação Clínica. Esta área tem um grande potencial para desenvolvimento em Portugal, mas sofre com a fragmentação de recursos por estruturas dispersas geograficamente e com pouca coordenação e alinhamento estratégico. Além disso, a passagem dos estudos pré-clínicos para os estudos clínicos muitas vezes não é vista de uma forma integrada. A RISE-Health procura colmatar estas lacunas e aproveitar o que de melhor existe em cada uma das entidades do consórcio, otimizando os recursos existentes.

 

A RISE-Health garantiu recentemente 12,9 milhões de euros no concurso de financiamento da FCT. Que impacto prático terá este apoio no trabalho das equipas de investigação nos próximos anos?

Parece muito dinheiro, mas também temos de ter em consideração que a RISE-Health é a maior unidade de investigação portuguesa, tendo quase o triplo do tamanho da segunda. Nós apresentamos um plano ambicioso de reequipamento científico que envolve dotar as instituições de infraestruturas de investigação de nível mundial. Essa infraestrutura tem de ser vista numa lógica de investimento, pois vai permitir desenvolver projetos de investigação, atrair e reter investigadores e também prestar serviços especializados à indústria, o que vai gerar outputs científicos de grande qualidade e atrair financiamento internacional e privado.

Nós também temos de dar resposta às indicações do painel de avaliação, entre elas, a necessidade de apoiar a contratação de jovens investigadores, projetos de investigação internos entre as linhas temáticas e o apoio à internacionalização, através das ligações às infraestruturas científicas europeias, como a ECRIN, EATRIS e ELIXIR. Além disso, existe algum apoio base para pagamento dos custos relacionados com a publicação de artigos científicos e apresentação em congressos internacionais. Tudo isto serve para criar as condições para que os investigadores consigam fomentar as suas parcerias e entrar em consórcios competitivos. 

Se eu tiver de identificar uma medida em particular, direi que a minha preferida são os seed projets (projetos internos), pois imagino-os como catalisadores da criatividade e da coesão interna da unidade, e acho que vão ser os que terão maior impacto direto nos investigadores.

 

Na sua visão, qual a importância de uma unidade de investigação como a RISE-Health para o futuro da ciência e da saúde no nosso país?

A RISE-Health está assente numa base diferente das restantes UIDs portuguesas e podemos ter um impacto diferenciado. Primeiro, porque estamos dentro da Academia – e isso faz toda a diferença – depois, porque a nossa temática (Investigação Clínica) é inerentemente aplicada e, por último, porque agregamos e coordenamos recursos e massa crítica em várias áreas clínicas.

A cooperação entre os nossos investigadores é intrínseca no nosso dia a dia e procuramos fazer das nossas fraquezas, forças. Portanto, tendo tido uma primeira prova de conceito muito bem-sucedida com o CINTESIS, acredito que podemos dar respostas efetivas às exigências atuais da saúde e fazer ciência de excelência.